domingo, 23 de maio de 2021

Para descer


descobri
no fundo do meu ombro
estava sempre ali
num túnel duro, um
buraco de agulha que nunca se fecha e
na verdade
era por onde respirava.
Lá do outro lado dessa pele-osso-eu
espremida entre as placas de eletricidade
os dínamos de leão
a massa atômica
a caldeira, o motor-mundo
a fera e as jaulas, as grades, os dentes
minha alma minúscula.
Como um pequeno andré
um serzinho, homúnculo
migalha de gente
ali ficou presa, embalsamada.
Como abrir, novamente,
o ovo
banhar-me no amarelo da gema mole
espremida entre os pulmões, pingando
dentro de minha barriga, por cima das tripas
e rins, amarela, amarela, pegajosa
quem foi que disse que um raio não parte o mesmo coitado de novo e de novo
como machadadas caindo do céu
sou dividido por uma guilhotina ao meio
minha alma... fica no meio
atingida em cheio
de resto, quem inda tem alma hoje em dia?
uma porta, um poço no meio de um
onde ele pode cair, afundar
onde transborda infiltra inunda encharca
olhem este homem! banhado de alma até os dedos!
pingando! pingando azul-cinza-roxo-lilás
amarelo-sol
as manchas de alma
pela cara, pelas calças
a língua passeia
gotículas de lindo no meu braço
os pêlos arrepiados dançam
irrompo um carro setenta cavalos a quatro nós,
o vento de barlavento a bujarrona, a
parafuseta os pistões o timbre, catapulta,
aríete, ictiossauro pássaro fênix de molho pomarola borbulhando ácida,
tem spaghetti hoje no cerebelo,
jantar de todas as dores e caprichos risos
entupo. ignito. implodo.
jorra champagne do chão, levito alguns centímetros

segunda-feira, 17 de maio de 2021

EU, UMA VÍRGULA


dobradiça de vento
nada mais do que uma quina
entre cabelos, unhas
e calcanhares pontudos:
um espaço (um oco) sem fim
sou a vírgula,
- infinitamente você joga luz dentro
ela não volta
não tem nada ali.
mas também
está saindo de tudo, luz:
pálpebras batendo (como
um peixe se debate)
eis a vírgula

segunda-feira, 10 de maio de 2021

A reforma tributária é o centro do debate

Compreendendo o nexo fiscal monetário do financiamento do gasto público, da formação da taxa de juros exógena pela acomodação da demanda monetária, e da emissão monetária, a questão da função macroeconômica da arrecadação tributária parece perder importância. Neste sentido, torna-se comum que os versados em finanças funcionais (no sentido amplo) desqualifiquem os argumentos que associam expansão do gasto público a reforma tributária. Desqualifica-se como incoerente com as premissas de demanda efetiva e moeda endógena, reafirmando repetidamente que o Estado pode se financiar até o infinito. Os mecanismos tradicionais, na teoria ortodoxa, de limitação da expansão fiscal - a inflação, o câmbio, o juro - são estudados em análises setoriais, em episódios históricos ou contextos institucionais dados, sustentando a prática corrente de refutação a priori. O financiamento é ilimitado, sem nexos com inflação, câmbio, juro; o gasto público expande a demanda, infinitamente.

Esta postura define uma interpretação das finanças funcionais bastante restrita, boa para a defesa da expansão fiscal mas sem nenhum apelo em relação à reforma tributária, vista como uma questão secundária, separada; frequentemente tratada como um objetivo de justiça social, ainda que se reconheça tacitamente que há muito mais em jogo. Porque há muito mais em jogo.
Se uma reforma tributária progressiva parece um ideal, na medida em que cala os embates sobre déficit público e impulso fiscal na direção de maiores graus de liberdade, ao mesmo tempo ela enfrenta uma oposição cerrada praticamente invencível. A repartição distributiva do ônus tributário é uma pactuação entre as classes; que ganha flexibilidade pela expansão do endividamento público, acomodador do conflito distributivo. No entanto, dizer que esse endividamento poderia elidir a questão da repartição do ônus - elidir a questão da repartição - indefinidamente, é uma afirmação bastante ousada. O nexo fiscal monetário se dá em um contexto institucional do sistema financeiro, com uma história e sempre em transformação. Da mesma forma, os instrumentos de política econômica são concretos, passam por coalizões de força reais; a economia não existe abstratamente mas sempre é social, institucional, histórica.
Neste momento a postura de finanças funcionais é de frisar a separação teoria e prática, teoria pura e sua inserção nos condicionantes sociais da realidade. É com base nisto, nesta separação analítica, que se diz, afinal, que a dívida é infinitamente sustentável. De forma que é com base neste modelo puro do sistema financeiro abstraído da sociedade que se desqualifica, definitivamente e a longo prazo, a associação entre gasto e tributo.
Argumento que tal posição não representa uma decorrência "necessária" da compreensão do nexo fiscal monetário e do Princípio da Demanda Efetiva. Não é de modo algum incoerente, e talvez seja bem mais realista, defender a insustentabilidade de uma expansão fiscal indefinidamente despreocupada com a tributação.
Se bem que o gasto não precise ser precedido por tributos, se bem que o Estado de moeda soberana não tenha restrições de financiamento, a "soberania" em questão não é uma categoria abstrata, inatingível a priori pelas consequências da expansão do endividamento público, dos déficits recorrentes, do aumento do serviço da dívida e tantas outras modalidades que o descaso com a tributação pode assumir.
De fato, a questão tributária tem sido tratada com descaso pelas finanças funcionais, e pelo debate heterodoxo. Não há grandes contribuições teóricas; pouco se fala de redução de tributos sobre a folha de salários; o ICMS é regressivo e objeto de extensa competição fiscal predatória... Ao mesmo tempo, é o sistema tributário quem fornece uma base - um pacto social sobre distribuição - para a sustentabilidade do gasto público a longo prazo.
Ao contrário do que a postura corrente advoga, poderíamos defender a postura inversa - sem que se possa nos descartar como incongruentes com o PDE e a moeda endógena - de que a questão tributária é o fundamento do debate; que a questão da expansão dos gastos trata do embate de curto prazo; que a batalha discursiva profunda é a reforma tributária, centro do edifício teórico das finanças funcionais realistas.

quinta-feira, 29 de abril de 2021

As contas do Rio de Janeiro (um devaneio completo)

Fico dividido ao estudar as contas do estado do Rio... De fato, a economia (o mercador, a troca) passa bem por aí: o ponto de vista dividido (como se o ponto de vista "envesgasse" ou focasse os olhos na linha d'água, na altura intermediária em que não se está dentro nem fora da liquidez) em que o gasto de um é a renda do outro, o custo de um é a riqueza do outro. E o "crescimento" passa bem por aí, o princípio genético está no atravessar de um lado a outro, de sair do dentro para o fora e atravessar o mercador e a liquidez da reprodução do dinheiro no tempo.

No Rio de Janeiro, porto de água. Escoadouro, estuário do leste sulamericano que se manteve unido e fortemente centralizado (como fez o leste da norteamérica, columbia), capital monárquica e republicana. Centro intelectual do continente, com suas universidades; polo independente, pequeno geograficamente, em relação aos vizinhos Minas e São Paulo, em relação ao jogo do polo nordestino de Pernambuco e Bahia, ou já na costa do norte, o Grão-Maranhão vizinho a esse sul-amazônico Brasil menos holandês. Uma Buenos Aires com repartição dos poderes: Rio São Paulo, e seu insulamento geográfico das corporações, das burocracias (assumindo que as empresas privadas também são burocracias - organizações racionalizadas (no sentido de Weber)).
Capital de mídia, e de políticos (ainda que completamente arrasada há décadas: palco de escândalos dessa pátria carnaval-sambo-futebolística noveleira verde amarela. Palco da histórica de uma imensidão territorial impressionante, das marcas de uma presença que depois se transferiu para um centro burocrático planejado (Brasília) em meio ao urbanismo concreto-automobilístico idealista da Barra e Recreio, da Cidade Universitária no Fundão...
Essa terra com a Baía de Guanabara (que teve ondas de 5 metros outro dia) e tantas praias praias praias (lugar amado) e sua Lapa.
Restam dois campos, no Rio midiático:
- o liberal sem nenhum projeto, só a "liberalização" cada vez maior
- o social querendo escolas e hospitais, salários, aposentadorias e o fim do regime de emagrecimento dos liberais. Que dizem "se soltou" sobretudo nos anos 1980, como a causa da inflação - a expansão do funcionalismo público, mal-compreendido como um papelismo irresponsável provocando vazamento infinito de ouro: criador da careza do câmbio (e a dívida externa, 1982, 1987, desde o choque do petróleo OPEP e dos bancos de Nova York). O culto liberal que se baseia num horizonte moral visto da cidade pequena - válido para a ação imediata de um indivíduo - mas perdido sem mapa numa terra de dinastias - pois toda economia, como reprodução, se trata de dinastias em territórios : o oikos é a casa - a propriedade rural - o grande Senhorio do Nomos, a administração racionalizada. Só que a ciência econômica necessita se basear também na ciência do Macro - a ciência da reprodução - o envesgamento de conseguir atravessar DOIS indivíduos em ambas as direções ao mesmo tempo - atravessar o conceito de mapa, indo de encontro ao X, o cruzamento (o mercador que faz a troca, a moeda que circula) o banco.
E muito da economia sendo levada por uma terceira coisa, nem social nem liberal. As dinastias de corporações, de oligopólios e estamentos sociais - num espaço.
O estado do Rio, ora brincando de vender o fornecimento de água, num país em que o crescimento se tornou a aposta completa no pólo liberal, sem nenhum outro.
Por que não vinculamos os lucros do pré-sal à CEDAE, e pronto? Por que não vinculamos o endividamento do estado, a longo prazo e com boas condições de pagamento (juros subsidiados), para investimentos na CEDAE? Se temos Banco Central independente, por que não CEDAE independente? Pública e independente? Pegando dívida para essa instituição (o Banco Central, a Cedae) requisitar o "ouro" do público (da república, a coisa pública que engloba as privadas (os oikos))
Acusam de patrimonialismo: patrimonial é o domínio do patrimônio (em oposição ao eixo matrimônio da reprodução corporal) da reprodução do capital (no limite, o ouro, o banco); vem do patriarcalismo histórico (herdeiro dos domínios paternos sobre os filhos, instituída a patrilinhagem da genealogia); patrimonialismo seria a extensão desse domínio privado sobre o alheio (a invasão da coisa pública). Curioso ser um conceito de invasão - de atravessamento - de cometimento do pecado que a economia liberal (cega ao mercador, e ao atravessamento que a moeda faz) e portanto umbilicalmente necessário (se me permitem a expressão) à reprodução patrimonial, e portanto econômica das classes produtoras.
Identificada a patrilinhagem no discurso (e seu vício monetarista, em seus mitos sobre o verdadeiro "ouro") no parágrafo acima, basta executar o procedimento materialista (no sentido originário, trimegisto) de se transferir à linhagem matrilinear (envesgando as narrativas individuais, trançando o tecido da genealogia econômica, atravessando cada gasto ser uma renda, de uma mão para a outra: em uma palavra, enxergando, realmente, a moeda que temos nas mãos (é tão difícil olhar realmente para ela, numa palavra: flagrá-la))
E não é a água, o futuro?
"Tudo é água" Tales de Mileto
E na liquidez (eu mergulho) dos ativos, das ações, dos capitais investidos - os capitais "sociais" das empresas, essas represas, esses oikos - momentos de repouso da moeda em sua circulação por espaços estanques - os patrimônios...
E para os que enxergam a cunhagem das moedas (que vem antes das impressoras de "papelada"), o artíficio da Cunhagem é antes Metalista (e não especificamente "ourista"); a Metalúrgica (e hoje a química, a plástica, a híbrida, a mineral, a agrícola) a criação de ouro através do tempo (ouro, como um pólen fecunda, um vírus que vem do alto e se reproduz na matéria, mas voltemos à matrilinhagem) e de onde, senão de escolas, hospitais, de autonomia da água, de garantias humanas nesse futuro inóspito que se apresenta? Das verdadeiras "indústrias" que o futuro do "desabamento" vai demandar, na nova fase humana que se anuncia, os tempos da hiperindustrialização em meio ao cataclisma... Os mares vão subir, porra!!!
E dito isto, para onde largaremos desenfreadas as energias produtivas do nosso povo? Senão na água e no saneamento?!!
O poderio do Brasil em termos de atingir objetivos nacionais é impressionante, ainda que os "objetivos" fiquem mudando e a nação se perca louca no tempo atingindo miragens com sua fúria produtiva e criativa (enquanto mal consegue conter a fera, a figura ultra-polinizada do capital desenfreado, do invasor (e não do mercador) do oikos, da abolição contrária (ao atravessamento genético do mergulho patrilíneo na matrilinhagem), do princípio mortal, letal (em oposição ao princípio materialista, matrilinear)
O SUS é imenso, globalmente falando
E o "Globo" só tem províncias (o mapa, como a tela, é plano, senão seria maquete 3d (trimegista triângula trimétrica))
Atravessamos o globo como o sol
Façamos a luz (que se faça a luz) acenda um fósforo FIAT
Façamos a luz atravessar a noite reencontrando a raiz astronômica da palavra nomia (essa autonomia)
economia: autonomia e gastronomia (crescimento interno e invasão mercadora) em um mapa astronômico (o território terra corpo aqui agora; a economia existe, antes de mais nada)
INCIPIT METERII

terça-feira, 20 de abril de 2021

7 DE ABRIL, DIA DO FEDERALISMO BRASILEIRO

Pode-se dizer que o federalismo brasileiro começa no 7 de abril de 1831. Segundo Rui Barbosa, o 7 de abril completa a Independência do 7 de setembro, proclamando a soberania nacional acima da monarquia. Em 1831 o Brasil se emancipa da colonização - o Brasil enquanto soma de poderes locais, regionais - e expulsa Dom Pedro I.

A federação Brasil então coroa seu Poder Moderador. A opção unitarista que se segue ao 7 de abril, que levaria ao Império parlamentar (com Conselho de Estado e Senado vitalícios), passou sim pela balança ter pendido mais para o Sudeste (do que para o Sul e os farroupilhas de tradição militar 1835-45 (e que depois se integram bem); do que para o Norte e Nordeste, 1817 Pernambuco, 1824 Confederação do Equador, 1840 a derrubada dos regressistas nortistas). Mas se o fracasso do secessionismo nunca estava garantido, a maior defesa contra ele era a própria longevidade do sistema unido, com um centro articulador. O 7 de abril foi o nascimento do federalismo enquanto pacto, mas sem abdicar da unidade nacional. Lembremos, o centralismo já em 1837 foi puxado pelos próprios nortistas.
De lá para cá, se Vargas queimou as bandeiras estaduais em 1937, tirou o nome Estados Unidos do Brasil e prendeu os grandes coronéis baianos; mas se o federalismo foi restabelecido e vigoroso em anos dourados até o golpe; o colapso do federalismo brasileiro a partir de 1965 é um problema. Foi aliviado de maneira tutelar pelo municipalismo da Constituinte, enquanto o respiro dos governadores de 1982 a 1993 (em meio à submissão da dívida externa) não floresceu numa retomada federativa. Passamos agora em centralismo monetário, BCB e presidente, sem reavivar a construção escalar do poder regional, das articulações que mediatizam relações supra-locais.
Desde o "sistema" coronelista da República Federativa de 1891, que Nunes Leal mostrou ser a articulação escalar de poderes locais com município, voto e as bases da política de governadores; mas desde antes, desde o 7 de abril de 1831 e a subsequente criação da Guarda Nacional descentralizada como remédio para a expulsão do exército português; desde o 7 de abril o Brasil pode ser caracterizado como um federalismo: articulação TRANSACIONAL (e não de subordinação) entre unidades que preservam sua autonomia.





domingo, 18 de abril de 2021

Atura ou surta

Tenho a vizinha que, todo domingo, bota um som altíssimo no repeat e às vezes pega no microfone pra cantar. Soma-se a ela uma igreja animada, realmente carismática porque é muita gente que a enche, e dá-lhe terças-feiras se exaltando no microfone. Tem obras e furadeira e serra, tem algum motor que quando arranca parece que o morro inteiro vai levantar, tem...

Tudo isso está muito bem e complicado, mas o que eu queria dizer é: não é do meu lado!!! Que motivo de alegria, sem mais. O barulho não é insuportável, e as janelas oferecem um bom vedamento. Quer saber, o principal: 9 da manhã a vizinha pega o microfone e grita para a outra vizinha: "Juliaaa!!! Atura ou surtaaa!!!!"
Que bom que eu não sou essa Julia! Quando fecho bem a janelinha aqui, ligo meu ventilador, e estou cá no apartado-apartamento livre dessa barulheira infernal. Então o karaokê termina, a igreja fecha no fim do dia, a obra pára: e vêm os grilos, as cigarras, as árvores se balançando. Hoje de manhã, em meio ao tuntztuntz, eram tantos passarinhos!
Meio cheios ou meio vazios, sempre cheios, nem que seja de ar.

domingo, 11 de abril de 2021

O futuro é dos mosquitos

Tenho certeza: se você pegar uma máquina do tempo e aterrissar em 2150 vai ser comido por uma barata gigante sem ter tempo de dizer "DDT". Baratas são besouros mais feios e marrons de maneira desagradável, mas se por um golpe de sorte implausível você escapar das garras daquela besta doméstica, outros besouros estarão esperando em fila para te pegar.
Sim, o futuro é dos insetos, insetos gigantes, por toda parte. Estive lendo que nós comemos insetos em todas as hortaliças e frutas verduras legumes que comemos, estão cheios de ovos de insetos. Mas quando falam de comer formigas na farofa, ou grilos assados com queijo, todos torcem o nariz. Os insetos estão por toda parte mas insistimos em não ver: o presente é dos insetos.
Nossas maquininhas: o que são motores senão insetos insuportáveis? Um inseto sem coração, apenas ossos externos e uma fome inclemente, com olhos desumanos: o inseto tem tanta alma quanto meu computador volúvel, com sua carcaça rígida, com suas leis sem coração. O zumbido do mosquito, o zumbido da moto passando a 80: insetos têm exoesqueleto como os andróides que vamos fazer para enfrentar as baratas gigantes, e que vão cruzar com as baratas decretando o bem-vindo fim da humanidade.
A humanidade, aliás, um tipo de inseto esquisto: formando seus formigueiros, cupinzais, andando em fila nas suas ruelinhas e canais construídos, grandes colmeias e massas humanas em ritmos regrados. Os humanos são insetos de outro tipo, e usam insetos máquinas, e comem insetos minúsculos. Pra falar a verdade esquisito é cachorro e gado, que não é inseto (ou talvez seja).
Insetos são e não são, e vem e pousa uma mosca irritante sobre seu braço. Absolutamente, essa mosca existe, para você e para os outros - mas e se não? E se, a cada 15 moscas multilaterais, pousa no seu braço uma que não é vista por mais ninguém. Diria que está dentro da sua cabeça mas ela está sobre seu braço e, digamos, ela existe para ela mesma antes de existir na sua cabeça, aliás: tome cuidado com ela. Alguns seres que tomamos como banais podem ser portas para o inominável.
Insetos, pois sim: comida, futuro, androides, cidade, divindade. O que mais?
-

andré aranha 

eu estava errado. perguntei a uma bióloga, que disse
"barata é outra ordem: blattodea. besouro é coleoptera. os dois sao insetos, mas não sao a mesma coisa 
blattodea inclui cupim também! baratas são irmãs de cupim e primas de louva-deus!!!! olha só


sábado, 3 de abril de 2021

O ratinho revoltou-se com sua prisão. "Jamais", avançou ele, de espadinha em riste.

Era a revolução em Ratuália, a capital dos ratos. Ratazanas esperneavam, os navios afundavam; ratoeiras armadas nas praças públicas.
O ratinho Rupert revoltou-se: "Sou inocente! desejava apenas a queijaria liberada! Nós, do partido Laticínio"
Mas não o deixavam continuar "Desordeiro!" "Boa-vida!"
Eis que, aproveitando o estado de sítio, irrompe por entre as ninhadas de rato: a gata esbelta da sra. Y..! Faminta!
Rupert é um herói, valoroso "Para trás, besta ignominiosa! Víbora rasteira, eis-me Rupert, para lhe extinguir"
Após a derrota da gata, aparece sua amada Gertrude, trazendo informações sobre o front:
- O partido laticínio invadiu a geladeira. Reforços na despensa da família Z...! A ratoeira clicou novamente!
A juventude rateira se empolgava, achando românticio o morticínio ratal.
- Rupert!!! não se entregue sem luta...! A revolução láctea precisa de você
- Está escrito nos céus, uma longa faixa esbranquiçada, anunciando a era do leite.
Mas os guardas não se importavam: com correntes de aço, Rupert foi arrastado para as masmorras.
- É um embuste! Me acusam de ter dormido com a presidente da associação!!!
Gertrude guinchou, horrivelmente
- Quiiiiiiii quiiii quiiiii sss.... sssquiiii
Nada de bom parecia esperar nosso herói, mas será mesmo? Não perca no próximo "Rupert e a ratoeira de queijo "

sexta-feira, 26 de março de 2021

A INVENÇÃO DAS SOBRANCELHAS

É claro, é claro, vão dizer (e trazendo gráficos e especialistas, powerpoint, um sujeito de óculos e barba e camisa pólo sorridente) as sobrancelhas foram inventadas para fazer frente ao suor, que escorre da testa, direto para os olhos.

E dizem mais: mamíferos sem sobrancelhas, no calor infernal, sentiam gotas nos olhos e tinham de esfregá-los bem na hora em que o tigre dentes-de-sabre babando resolvia saltar sobre nosso antepassado. Quer dizer, sobre o TIO do nosso antepassado, um parente que não teve filhos por conta da morte na púbere idade. Desprovida de sobrancelhas, fique claro.
Já nosso marsupial querido, vovô Pitecantropus, esquivava as gotas desse chafariz craniano com facilidade, devido às suas bem-fornidas linhas pilosas sobre-oculares, podendo penetrar, com sua visão aguda, na mais íntima vergonha do já referido tigre, assistindo ao espetáculo do tio dessobrancelhado sendo devorado, prevendo cada gesto da fera e pronto a se esquivar. Sobrancelhas grossas então, valorizadas pelas fêmeas (isso é jeito de se referir à sua avó?) pelas nossas avós calculistas, com medo de tigres sorrateiros. É isso, e daí temos sobrancelhas.
( Pausa para avaliar que sobrancelhas fazem sombra mas não são SOMBRAncelhas. Aliás os franceses chamam elas de "sobre-cílios" (muito caído isso) enquanto o nosso sobre-cílio ficou de esguelha, não pentelha, anseia - espera, caiu suor no meu olho, )
Agora sim, foco. Olhar penetrante. Sem tigres dente-de-sabre ou dente-de-faca, garfo, colher. Sem tubarão-martelo, sem nada no meu radar. Olhos penetrantes, vívidos!
Suor coisa nenhuma. A evolução não é tão materialista. Vovó Pitecântropa não tinha medo de tubarão-de-sabre nem pirata nem nada disso, era uma marsupial feroz, inclemente. A questão é muito outra.
Vão dizer: hoje as sobrancelhas são sobretudo expressivas! Quem depila sobrancelha? Fica horrível! Faz parte do rosto do homem (e da mulher, da criança, até de alguns pets, de tigre...) moderno. Só do moderno?
Eis que chega, sorrateira, saltando de trás de você (que ficou pensando sobre marsupiais e depilação facial e abriu a guarda para essa intromissão vergonhosa), irrompe na cena, babando, a verdadeira resposta sobre a sobrancelha. Sem mais delongas: a sobrancelha foi inventada para fazer cara feia. Os marsupiais nem suavam. Tigres dente-de-garfo não existem. Vovó Pitecântropa usava tubarão-martelo pra pregar vovô Pitecus na parede (era o matriarcado primitivo, procure se informar). E eis que tio Dessobrancelhado não tinha sexy appeal. Vovó falava, de lingerie primitiva: "Façam uma cara bem malvada!", tio Dês exibia os dentes, enrugava o rosto todo, arreganhava os lábios. Vovô, simplesmente, com um olhar de desdém, envergava suas linhas peludas, em uma expressão inconfundível >: (
Estava claro quem era o caminho da evolução.
Nada de suor no rosto, suor é coisa moderna porque naquele tempo era idade do gelo e a galera nem tinha roupa; vivia na floresta, não tinha aquecimento global etc. E determinante evolutivo, convenhamos, não tem picas a ver com tubarão-chave-de-fenda surgindo de trás da rocha. Sexy appeal man. Cara de malvado. É isso que importa, hoje, ontem, e na marsupilândia.
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andré aranha

domingo, 21 de março de 2021

RACIONAIS DEMAIS

melhor: burocráticos

Se racionar fosse pôr em proporção; balancear -
Racionais demais: porque a razão desmedida rompe a razão mesma e se torna desrazão: fazendo cálculos demais, agarrando-se em derivações teóricas de contabilidade, os dias, as medidas, por sobre relações frágeis que não güentam essa lógica imposta (fria, ignara). Num mar de absoluto além-razão (sua razão que se diz sem corpo). Raízes finas bem trançadas, teus raciocínios, mas que me importa se o mal é nuvem, que te fura e sobe
Se a razão não tem corpo não é razão você já perdeu o raciocínio... Tão racionais, a ponto de não sê-lo (querida razão perdida)
Burocráticos: é de tirar do sério
Se a razão fosse racionamento, fosse pôr na medida qual um meditar; e até pôr a si mesma na medida, e a própria raiz trançada;;
Burocráticos: perdida a razão como um manual de burros, põem-se antolhos, ignoram o mundo, reina o desencarnado. Ou raiz-tudo ou fogo-além, vocês não veem o meio caminho
Então entramos numa religião da burocracia e vocês dizem não é religião porque tem verdades letais não é brincadeira e eu digo: religião nunca foi essa coisa leve de se escolher, ao puro bel-prazer, de se trocar como troca o canal de tv, a capa do celular, a hora do despertar
Religiosos vocês, dogmatas. Cães cínicos comendo seus hot-dogmas do culto à burocracia-ciência e desimporta todo o molho vermelho escorrendo pelas mãos
Não vivemos sua arquitetura, os seus grandes projetos: vivemos a ruína (o erro a mancha denunciadora). Tudo é ruína (estamos antes da idade da pedra, involução mental absoluta, pré natureza). Adentremos a idade da natureza: avante! Para baixo! Ao nu!
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andré aranha

sábado, 13 de março de 2021

O SOL É PLANO

Nunca sabemos o que estamos dizendo: pensei duas vezes, falei três, e ainda não sei. A língua é um laboratório: faço planos e mais planos por entre minhas orelhas, piscando olhos, imaginando. Sonho sonhos. Turbilho tudo que recebo no meu turbilhão. E então experimento: a língua é um laboratório: boto palavras no mundo, sem saber o que dizem: cada frase que profiro é um teste.

Estamos sempre rumo ao desconhecido, não há o controle. Se o tempo é um círculo, que imenso é o círculo em suas voltas. Irrompendo minha linearidade imposta a tudo.
Não há equilíbrio, nunca há. A ioga foi traduzida errada: nunca se trata de encontrar uma perfeita neutralidade, imparcial eixo por sobre os pratos da balança. Nunca se trata de parar: não há equilíbrio. Só existe o desequilíbrio: estamos vergados, galhos vergados sob o vento do tempo, carregando-o, adiante. E cada passada de segundo é um desequilíbrio: eu respiro, eu penso, eu sinto existo ando grito
Converso despejando experimentos, ouso, especulo: sou um grande apostador de ideias - sou um grande espectador desta arena de ideias, desfruto vendo-as se digladiarem, irromperem de suas cavernosas mentes à luz da fala. Que querem dizer? Querem algo? Ou só rebentam e espatifam no ar, como um jorro de frases encadeado, enquanto me empolgo, o sangue me aflui à face, engatilho raciocínios vívidos. Tento de tudo para convencer. Eis o teatro
Eis a arena dos malabaristas caindo
Só há o desequilíbrio (não tem nada no centro do círculo)
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andré aranha

sexta-feira, 5 de março de 2021

OS REIS DA COZINHA

Adoro cozinhar, regularmente, e adoro mais ainda NÃO cozinhar, regularmente. Eterna polêmica se o feijão deve ser temperado ao atacado, um quilo inteiro cozido e congelado para ser preguiçosamente requentado dia a dia - ou temperado a cada lote ou mesmo a cada refeição. Não é melhor comida fresca, recém-feita?

Feijão, para mim, é feijão requentado; muito raramente como do fresco que é mesmo uma delícia, especial. Mas não é que não valha a pena - não é da ordem das coisas esse feijão fresco todos os dias. Sei lá, eu não sou cozinha de batalhão que precisa fazer feijão todo dia (e mesmo se fosse, não daria pra congelar? investir nos ganhos de escala?) que sei eu. Adoro os ganhos de escala.
Dedico meu esforço: eu mesmo vou cozinhar e limpar tudo, a casa; os cuidados de mim, esses mais íntimos, mais diretos, esses sou eu quem faço, tenho saúde, isso é saúde - é como escovar os dentes, já me disseram, como tomar banho e se vestir. Pois é exatamente isso. Todos temos um método no sabão do banho, um na toalha que enxuga, um na escovação dentária e os pequenos hábitos da diligência cotidiana consigo mesmo. Um método nem muito chato, nem muito ineficiente - voilá, é disso que estamos falando. A cozinha é mais um departamento do corpo que precisa de atenção: fazer a barba, fazer a cama, fazer o café. Fogão, extensão da minha barriga, louça, extensão da minha boca e eu lavo a louça como lavo os dentes...
Atacar a cozinha como um desafio na autonomia de si. Reinar na cozinha, investindo bem o tempo, a disposição, o saco. Ganhos de escala, ganhos de imersão, e ganhos de repouso; viva a geladeira, e viva, principalmente, estocar comida feita para comer requentado. Vitória completa dos que almoçam o que cozinham - o que cozinharam outro dia, pois naquele dia são reis, inúteis preguiçosos, bem-servidos pelos si mesmos do passado.
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andré aranha

sábado, 27 de fevereiro de 2021

A SAÍDA DO MAPA

Queridos livros com que me cerco. Gostei tanto, ontem, de desempacotá-los. Abrir cada caixa da mudança, como um embrulho de presente, e redescobrir que os tenho: em cópia impressa e muitas vezes anotada, amassada, minha.

Livros, biblioteca, estante de impressos que me protege e me cerca no escritório que vou montando. Livros, nos quais tento dosar minha crença: se quero tanto adicionar os meus, que a tudo resumem; se quero tanto deliciar-me nos grandes e verdadeiros, que a tudo resumem. Mas se no fim são só palavras, são sobretudo palavras empoeiradas, roupas que vestem o mundo e o sentido está no mundo e nos corpos de sangue e alma; são só resumos, somas, sínteses. Está bem o valor do mapa, para quem está perdido - mas que importa o mapa, se estamos cegos?
Então livros que não são somas, que não são resumos. Que esquivam a utilidade, que distraem do sentido. Em que os olhos (essas glândulas, esses gânglios, essa distração dos músculos) repousam, brincam. Desenho do gesto do rio de palavras, meus olhos piscando
Sair do escritório adentrando uma oficina de papéis, suspender o mapa, desenhar portas e corpos outros, desenhar o sangue, desenhar almas e
romper a palavra, a roupa rebenta em trapos, escrita jorrando como um cano
abolição do encanador
A biblioteca, a prateleira, a selva de páginas de que me cerco: como um castelo de que sou rei: como um navio de que sou a vela: como um banquete comido lento
Rompido o sentido, liberto o sentido, encontro o sentido. Olhos parados no horizonte, distraída leitura, caneta balançando sem rumo
dragões invadindo pelas bordas do mapa.
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andré aranha

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

O BANCO CENTRAL É UM BANCO

O mundo do dinheiro (esse número) é o mundo da medida.

A moeda tem três funções: unidade de conta, reserva de valor, meio de pagamento. Esta última, dizemos que entendemos: é o dinheiro com que pago. Entendemos a do meio: guardar o dinheiro, a riqueza, ao longo do tempo. Mas a primeira - unidade de conta - parece estúpida
- é porque somos cegos.
Nem entendemos a do meio, na verdade.
E a última é um mistério.
Que é o dinheiro?
Por muito tempo se insistiu em começar a entender pela última: o trocado que permite o escambo livre do mercado - daí nasceu o "monetarismo".
Vejamos, por nossa conta, a função do meio: um produto que preserva o valor, através do tempo. A reserva de valor é a função direta, real, de indivíduos específicos com vastas somas de poder econômico: a riqueza (e seu controle político ao longo do tempo) que impera sobre os trocados.
E a primeira função, a unidade de conta? É a superestrutura jurídica, a rede coordenada, burocrática-tecnocrática (aspirante a mecânica) que reproduz o sistema em que se preservam as reservas de valor. O “sistema” numérico. A medida,
A moeda, em suma, deve ser compreendida (deve começar a ser compreendida) pelo jogo destas duas primeiras funções: o sistema da medição (unidade de conta) e a manifestação direta deste sistema (reservas de valor específicas).
É preciso vê-la com os olhos dos bancos, que as imprimem, mais do que com os olhos dos pobres que as anseiam ter nas mãos.
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Direto ao ponto, sobre o tal dinheiro, sobre a tal economia:
Temos 3 restrições, da mais geral para a mais particular, nesta ordem:
(1) imperialismo (a necessidade do dólar)
(2) luta de classes (salários, inflação)
(3) capacidade produtiva (taxa de reinvestimento da produção para ganhos da própria capacidade produtiva)
A partir daí é pra gente usar e abusar.
Sempre que existem recursos ociosos (desemprego, material ocioso, falências generalizadas) está sobrando capacidade produtiva (3). Dito isto, não existe restrição de uma espécie de "poupança financeira", da qual o Estado necessita para poder aumentar o reinvestimento da produção. A restrição ao crescimento e à acumulação ampliada é imposta como imposição POLÍTICA em meio à luta de classes (2) e ao imperialismo (1) - o teto de gastos, o ajuste fiscal. Ela não é restrição "produtiva" (3); o conceito de "poupança" macroeconômico é um resíduo, o final de uma história com 3 etapas (gasto autônomo, originário > multiplicador da circulação > saldo residual poupado). O ponto de parada, o final da história.
Precisamos voltar ao início da história e entender a emissão do dinheiro - como um banco.
Muito legal isso de com quem o dinheiro foi parar, como um trocado circulando. Mas e a fonte? E a emissão de dívida que tantos agentes privados realizam crescentemente, como parte de sua estratégia de lucro? O estágio primeiro, daqueles que decidem QUANTOS ativos financeiros vão ser emitidos; muito legal as medidas da régua, mas e a régua ela mesma?
Em uma economia não-dolarizada (questão delicada aqui na periferia global) o Estado é um hiperbanco que nunca pode se endividar demais, em moeda própria, a ponto de não poder se endividar mais ainda. É que a moeda ela própria (esse resíduo, esse final da história; o meio de pagamento; o fluxo de renda que circula) não tem para onde ir a não ser emprestar ao governo (os seus portadores podem fugir, vendendo-a no mercado de câmbio, mas quem comprá-la continuará sem o que fazer senão emprestar ao governo).
Erram muito falando de "impressora de dinheiro". Não é o dinheiro "meio de pagamento", o papel-moeda que circula, que é o importante. É a emissão, pelo Estado, de poder de compra em geral; são todos os seus gastos, emissões que ocorrem diuturnamente e são canceladas (pelo funcionamento orgânico da economia) pela incidência de impostos sobre o ritmo de acumulação, e que se consideram "sustentáveis" conforme a economia cresce (hoje medida pelo PIB) mas na verdade conforme as restrições (1) e (2) são atendidas - imperialismo e luta de classes. Essa "sustentabilidade" é a manutenção (e ampliação) do sistema de reservas de valor (os gastos, a circulação orgânica na economia), o sistema da unidade de conta.
Não há um "produto", um "meio de produção" chamado dinheiro nacional, que precisamos, enquanto Estado emissor do tal dinheiro, acumular. Não existe restrição de poupança financeira: é para isto que servem, no mundo financeirizado de hoje, a Dívida Pública e o sistema do Banco Central garantindo sua compra para manutenção da taxa básica de juros - é o alicerce do sistema de unidade de conta e reserva de valor. Se, organicamente (pelo uso direto da capacidade produtiva da economia), se cresce a economia mais do que esse juro, temos a tão-falada "sustentabilidade da dívida pública" (Ciccone, 2008, estendendo a análise do multiplicador de Haavelmo, 1945, e que está prevista como "expansão financeira sustentável" do Estado, na "perversa aritmética monetarista" de Sargent e Wallace (1981), como "senhoriagem" definida amplamente incluindo tanto emissão quanto uma dívida pública que cresça menos que o PIB (p.6, final do lado direito)). Repetindo, essa "sustentabilidade", ou mais amplamente a manutenção do sistema de reservas de valor (os gastos, a circulação orgânica na economia), é o sistema da unidade de conta.
As restrições superestruturais que nossa economia enfrenta são o imperialismo (a inserção internacional do país) e a luta de classes; não há restrição "de capacidade" financeira, ligada a bancos. Não "faltam" bancos ou "poder financeiro". O Estado é (pode ser) banco, gerando, através de suas aplicações, uma taxa de acumulação e de nível de crédito (como se o Estado "desse lucro", se sustentasse financeiramente) crescentes, sustentando renovados e acrescidos dispêndios (e planejamento de longo prazo).
O "verdadeiro" poder de emissão do Estado é como uma versão hiperpotencializada de uma emissão (IPO) de ações, de uma alavancagem financeira corporativa que resulta em patamares mais e mais elevados de acumulação. Em suma, se querem tanto pensar o Estado como uma empresa, entendamos a banalidade que é, no capitalismo de hoje, alavancar-se permanentemente e crescentemente. Que é isto de ser banco? O Estado é banco, e é nossa estúpida teoria monetarista (toda fascinada com o "meio de pagamento" e uma visão apolítica da circulação mercantil direta) que insiste em separar conceitualmente os "bancos públicos" (BB BNDES Banerj CaixaEconômica) do "Banco Central" e do "Tesouro Nacional", e imaginar que existe uma hora em que se "liga a impressora". Essa separação tripla é a essência do monetarismo profundo que tudo confunde nas finanças públicas do país. Obra-prima do fetichismo.
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andré aranha
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Ciccone, 2008, e a macroeconomia da Demanda Efetiva:

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

EDUARDO PAES E O FUTURO DO RIO

Moro há 4 anos na Lapa, no centro do RJ. E lá vem de novo o projeto de cidade turística.
Urbanismo caro, de vultosos investimentos. No centro do Rio de Janeiro. Região central de uma grande capital do Brasil industrial.
Turístico. De serviços, de moradias e restaurantes; imobiliário. Que vem como uma avalancha sobre o centro da cidade.
E a crítica a isto é um debate localista sobre gentrificação de bairros, de setores específicos da sociedade. De encarecimento de uma parte, de expulsão de pessoas.
Mas quem anda pelo centro do rio se impressiona da quantidade de oficinas, de estoques, de galpões com máquinas antigas. Imóveis antigos, ruas antigas, meios de produção volumosos, e uma imensamente dispersa e despadronizada massa de proletários; (em cada oficina de carro, em cada serralheiro; em cada feira, em cada fretista, cada marcenaria, cada galpão de estoque).
Quando imagino a avalancha da especulação imobiliária, lembro das gráficas da Gamboa e os milagrosos impactos do Porto Maravilha. Gentrificação, pois certo. Mas meus olhos são muito atraídos pelas oficinas e estoques e revendedoras de peças e pequenas metalurgias e usinas de produção. Aço. Siderurgia. Metalurgia e indústria gráfica, antigos bastiões da indústria brasileira no Estado do Rio de Janeiro.
Vi aquelas lojas fechando, e as redes de complementaridade e simbiose e (por que não?) inventividade entre as muitas médias empresas e todo esse ecossistema econômico - se desfazendo, sendo obrigados a migrar, a perder somas, a dispersar trabalhadores qualificados.
Uns diriam "É o processo natural, de obsolescência!" e imaginam que, por trás dos irrequietos voluntarismos humanos, operam vastas leis inclementes (somos passivos serventes de seus desígnios... mergulhamos no esquecimento do eu, dionisíacos do niilismo) se recusando a participar da Consciência que arquiteta intencionalmente esse mercado: o Estado: a convenção da nossa ação coletiva.
Não, o Estado deve ser sempre negado como pensamento, é sujo, é corrupto, é político! Podendo ser qualquer coisa, é sempre fruto de um pacto, um conluio; o Estado é esse cartel que somos e negamos, reiteradamente, esperando o pesadelo acabar.
Jane Jacobs, a escritora jornalista que tanto iluminou o urbanismo ao descrever as simbioses dos ecossistemas-bairros, tanto residenciais (e a questão da segurança, dos muros, das praças) quanto os industriais-mistos - ela demonstra, em seu A Economia das Cidades como é esse "ecossistema econômico territorializado" em uma região das cidades, e que precisa ser alimentado. De nada valem vultosas plantas industriais no meio nada, cercadas de cidades-anãs-dormitórios (turísticos). É a simbiose em permanente transformação dos bolsões de médias empresas que se criam ao longo de muitas décadas em bairros (como na Gamboa, como na Lapa) é esta a fonte da abundância - desde a Revolução Industrial, desde a Revolução Agrícola engendrada pelas cidades, desde a Mesopotâmia e a primeira cidade, diz ela.
O Rio de Janeiro, o Estado do Rio, o Brasil - continua em um mergulho dionisíaco no niilismo, querendo "entregar-se", "abandonar-se" às mãos de outros (do mercado, dos estrangeiros, dos profetas que sei eu) em vez de tentar assumir as rédeas do seu destino. Como disse outro dia: "não há opção" (ah somos corruptos demais para o desenvolvimentismo, somos ineficientes demais para as estatais) - não há opção, não há desenvolvimento "inconsciente", pelo simples largar-se às marés do mercado. Sempre há o Estado fornecendo os eixos da acumulação - é niilismo negá-lo. A economia é decidida - temos arbítrio, sempre. É uma convenção, o dinheiro é uma convenção, um crédito, uma finança - ele não é uma máquina super-eficiente, uma peça de troca, de facilitar escambo; sua origem está no político, no poder dos reis, no crédito.
O Rio de Janeiro, o Estado do Rio, o Brasil - padecem de uma industrialização largada às cegas, de largos espaços de tecido urbano com herança industrial, com pulverização de meios de produção. Somos uma nação avançada, comendo poeira há 40 anos mas ainda fortemente capitalizada para retomar uma das disputadas vagas do crescimento global.
Cadê, eu pergunto, nossa política industrial? Nossos investimentos estatais pesados na CEDAE como contratadora de produções de grandes empresas (que por sua vez demandam de produção local seus insumos, e temos aí os ecossistemas crescendo) auxiliadas pela Universidades Públicas, para tomar a dianteira mundial da produção de Saneamento (essa questão do futuro)?
Cadê a articulação das nossas reservas de petróleo, com nossa indústria petroquímica e seu complexo de médias empresas (essa fonte do desenvolvimento, essa fronteira dos químicos e dos plásticos) "esperando" a boa-vontade do mercado (dirigido pelos estados americano, chinês, europeu...) enquanto o governo brasileiro cruza os braços?
Pois bem, Paes irá produzir sua soja, atrair seus dólares de curto prazo. Que pode ele? é só um político; e se o problema está em nós e não neles? Porque mais uma vez adiamos o controle dos nossos eixos industriais, que pouco a pouco se desfazem, e o Brasil come poeira; gentrificamos o centro do Rio, como mais uma privatização desgovernada. É divertido, no mais, lançar-se à História sem nenhum planejamento. Talvez tenhamos sorte e caiamos, pelas graças divinas (desse deus negado, desse mergulho dionisíaco no niilismo social) numa sociedade mais justa, numa economia da abundância. Até lá, oremos - é carnaval.
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andré aranha