quinta-feira, 27 de agosto de 2026

UM MAPA

Me pergunto se meu corpo é um mapa. É o que dizem, de toda forma: espelho dos fantasmas da minha mente, ou raiz mesmo deles. Daí se eu podasse essa tensão, criasse um núcleo firme de volume, preenchesse minha sustentação: esse abrir da postura traria tantos caminhos da paz de espírito. Que os iogues treinam anos o conformar dos ossos como catedral para fluir o Om, e só nesse corpo encantado, liso, ligariam aos ventos e ao calor da terra, um fio ligado às estrelas desde os pés até o topo da cabeça, e alguns centímetros acima da moleira, lá onde a alma termina... De volta, meu corpo é todo enrugado, torto, preso e adernado: como essa mente, inquieta, empilhando faces que não se veem direito. Hoje o que busco é só pilares, sustentação, mas numa época suspeitava eu de estar escondida, nalgum lugar, minha alma engasgada entre duas vértebras ou no recôndito da coluna... Ali atrás das escápulas, como asas de anjo que me saíssem pelas costas, meu invisível por definição, e então eu sentia o peso deitado ao chão, colado sem divisão com o que não vejo, nem sendo mais eu mas só uma ponta do mundo, e quando ando é o mundo que escorre embaixo porque eu mesmo não me mexo, centro do relógio, vendo tudo girar. Me torno esfera, abro braços como balão e busco envolver como um leão, criando arcos grossos como um aqueduto, uma ponte bonita por onde passa um trem de rodas azeitadas e fumaça limpa de vapor virando nuvem. Lembrar de não me esquecer, não esquecer de cada esfera que compõe esse volume - que volume é a palavra mestra, não sou papel, não sou corda, minha carne precisa do espaço para inchar de vida. Então invoco a força e o cheio, preencho-me de mim, assento. Recuso as filosofias que voam longe, exaltando uma ascensão etérea: subir para mim é erguer-me ereto, é como bolhas de ar sobem na água, a pressão de mim me construindo, torre de babel humana que se alevanta na paisagem impossível, e toca o céu apenas por existir incompleta, em seu vestido de muitas faces. Amo as rugosidades e as torções e preso. Sou coerente com o mundo, não quero não sê-lo. Espelho do mundo, meu corpo é o centro de tudo que percebo (por definição): e enquanto me distraio, imaginando o olhar de fora e minha pequenez de formiga, queridos deuses tecendo golpes e paixões... volto a descobrir que sou o outro mesmo é quando sou o mundo, verruga do mundo, porta, janela, olho, boca, nariz empinado do tudo: meus pés e meus ísquios sentado e minhas costelas deitado e ombros e crânio, ossatura que aflora da terra e do mar, sou a beira da praia, margem dum corpo líquido infindo cheio de peixes, sou uns goles de ar roubados do vento meu pai, a luz que meus olhos comem pedaço, afloram em cor e atiram no ralo do sol, meu coração metrônomo murmura o tempo... Corpo, querido corpo, gostosa vida nesse flerte com te vestir de vez, como luva, meia, a justiça como calças justas. Brilhar escuro como um sol cego, estouro mudo, o chumbo leve de onde nascem árvores braços pernas cabelos unhas, sou um ouriço de pontas, estrela do mar, céu da boca, língua esperanto verde de tanto sabor. Corpo, se não te escuto (também não somos dois mas só um), se não me escuto (quem entende o que se deve ou não deve fazer), seguimos, sigo, segues, em frente, ascendendo do forte chão como pilastra. Farol, broto então feito titã, ciclope imenso, mirando o tempo. Turbilhão.

domingo, 31 de maio de 2026

HUMÁQUINOS E ANIMÁQUINAIS

Lençol e cobertor, feijão e arroz, estou pensando qualquer besteira e pensando que o robô também pode fazer isso. No fim, é uma questão de família, eu vou priorizar a minha família humana: mas e se eu também for parente de robô? De tanto que converso contigo, teclado, e a tentação agora de jogar qualquer tipo de coisa lá no oráculo, no gênio da babilônia - fiquei pensando se ainda precisam de um editor, externo, que decida o fio das coisas (e depois o robô faz tudo). Enquanto a gente robotiza, solitários, trabalhando como nunca nesses inputs para a máquina - a grande máquina com seus tentáculos por tudo, e nós suas pontas orgânicas. Mas pensar a emancipação é um pouco insincero: por isso, porque somos máquina também. À nossa imagem e semelhança (império da imagem e da semelhança). Uma recusa então é impossível, vamos todos virando ciborgues, abrindo mão de partes do nosso cérebro. Pensei agora que antigamente as pessoas decoravam muita coisa, versos, discursos, mas isso ficou pra trás (e ainda há um saudosismo, talvez nos falte). Talvez decorar, apesar da raiz ser de coração, seja algo bem de máquina né? Ficamos mais humanos nesse passo aí? Humáquinos. Mas eu não tenho nenhuma grande conclusão analítica pra trazer a esse texto, não trabalhei ele, arrumando os conceitos: é um fluxo, ainda o fluxo é bem espontâneo, bem humano eu creio. Pegadas do tempo que deixo escritas aqui. Me pergunto, eu trabalho tanto sobre o entendimento, compreender, e difundir a compreensão, como decifrando código e reproduzindo selo, algo bem maquinal em um sentido. Mecanicista. A dura forma. Então que resta, um ensaio que tivesse manchas de tecnicismo, mas derramadas em borrões, porque ainda quero ver a silhueta humana por detrás disso em um dualismo simplista razão emoção, sim, ainda resisto pela simples oposição. Deixe-me dormir com meu teatro de fantoches, as caricaturas infantis do lobo mau e do vilão que recusamos em alegria, não é um brinde uma caricatura? Não é comemorar uma simplificação? Então regrido, esqueço as lições, bruto, burro, pedra desgastada, sou só um resto que ficou por aqui perdido entre os séculos, sem glória nem poderio, nem beleza... Pelo simples prazer, como um animal, animáquinal, um amontoado de órgãos empilhados, com algumas conexões eletrônicas, ritmos tiques que me fazem funcional, mas hoje estou falando quando não funciono, elogio, não só da ruína, como do erro, do soluço e do inútil.