sábado, 26 de fevereiro de 2022


Cada vez pior na poesia,
o poeta ataca com o pior poema de sua carreira.
Ao lê-lo,
amantes da poesia reveem suas amadas
e aqueles pouco conhecedores
a recusam com ódio,
com júbilo,
com razão.
De tal forma é a recusa
que não há poesia depois do poema
um poema indefensável e abolível
e mais um outro, e mais um.
Cada vez pior na poesia, o poeta imprime palavras falsas
seu poema é torto, não é poema
a língua se desaprende e se desfaz.
E em seguida ao poema,
um alívio, o reencontro
tudo é melhor que ele
e ele é pior que nada - e de poema em poema
o poeta afunda
em um poço da poesia perdida
como um cego apalpando a poesia das tábuas enterradas
um poeta perdido no tempo e nas letras
e cada vez mais, e cada vez mais
uma poesia esguichando feito baleia
dum ser marinho, mergulhador
desafeito ao livre curso das narinas, à livre voz, ao livre cantar.
E encerrado num mar profundo, o poeta rima
o nada com coisa nenhuma, em linhas sobre linhas
num empilhamento de babel
que é o que sobra, que ele deixa
em seu perder-se
piorar-se
desfazer-se
perdidamente tragado pelo céu, ou pelas profundezas
perdidamente perdido
e sem poesia
palavras as mais tolas, som o mais oco, rima a mais vaga
poesia finalmente inútil
poesia ponto de chegada, inútil
ponto de parada, e cada vez mais
imóvel
uma poesia parada, e cada vez mais
E em declive prolongado
a poesia desmancha
como uma espuma, e o poeta estoira
como uma onda rebenta nas praias
e sua escrita, aguerrida
como as colunas de mar desabando
o poeta desaba, a poesia
sem nem onde pisar, poesia poeira
uma poesia defeita 

sábado, 19 de fevereiro de 2022

Capítulo 6 (final)

...O audacioso Flippert então mergulha no vulcão de Ogismond, sabendo ser essa a única alternativa para a salvação.

A lava ao seu redor forma colunas de mármore e molares da garganta de uma grande boca.
- EU SOU O MUNDO FLIPPERT, E VOCÊ VAI SER MASTIGADO
Flippert foi transformado em geléia de movimento sísmico, massarica de petrolatum pílvico, etc etc
Os jornais lamentavam: "Nosso herói, ergamos uma estátua"
Mas na verdade Flippert não pulara: quem pulara fora uma casca que o Mundo comeu enganado;
Flippert ria: "Deuses derrotados, sou poderoso de uma figa, vôo morro e engulo raio"
Nosso herói Flippert então encontrou o Dragão de Ogismond. Era uma figura terrífica: pelos dentes longuíssimos, a garganta obscura, a rigidez dos olhos titânicos, o rabo em forma de flecha...
Bem simplesmente o Dragão comeu Flippert e acabou a história. Os jornais choravam: "Era nosso herói, desde o vulcão"
Mas sem perceber a homonímia do Dragão e do Vulcão, lhes escapava o cerne da história.
Sim! Pois Flippert já tudo planejara:
- "Estive tramando por anos e anos, e agora é chegada a hora"
Ogismond inflamou-se e de súbito Flippert debandava. "Não tenho como resistir a isto, são flâmulas enfeitiçadas".
Os jornais entram em êxtase, e Flippert compra o exemplar do dia. Napoleão é rei de França, Flippert, de Europa.
- "Não estou na Europa, é uma cilada!" Flippert com sua espada. Perfura o peito do Conde de Q. Que espirra sangue, derrotado.
Flippert reina na primeira página, invicto, ilegível
- FIM, FLIPPERT! Largue esses bonequinhos! (flippert debatia-se na lava)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

DA LUZ E DOS OLHOS (apolo, o rosto de dionísio)

Nos perdemos na matéria que nos cerca: não se existe, a rigor; o verbo nunca se conjuga na primeira. Existimos em coletivo como irrigações da autoconsciência do corpo populoso de vias e nódulos irradiando, e este supercorpo da sociedade-organismo tem o formato terrestre, intercontinental, de cidades dispostas como um círculo ou uma flor ao redor do polo norte.

Desvencilhar então da primeira pessoa, e dessa visão seccionada de tudo. Abrir-se a uma consciência contínua, infinita, e profundamente material, com um formato específico: e vestir esse formato. Reeditar as Leis da matéria agora como chaves que revelam a matéria subjacente, e trazem à autoconsciência coletiva o seu reinar ininterrupto. Trazer à luz, enunciar o discurso que produz a forma a partir da matéria, em que é o barro quem assume feições vindo de baixo: e finalmente ver a forma que a matéria assumiu, não como um acaso, mas como a expressão profunda de suas leis e vontades subterrâneas.
Leis da própria matéria, legisladora, que como um Gêiser irrompe em Rosto: as leis da matéria são legiferadas pela PRÓPRIA matéria. Descobrir a Cabeça-da-matéria, o símbolo concentrado, o furo no breu, a língua, as partes baixas; ruptura da cerca, porta que se abre e fecha, olho, que se cerra à chave da Vontade material que ali vigila. Descobrir que nosso corpo-múltiplo, e o corpo do mundo, se autorrege, titã, imperador real e infinito em meio a tantas finitudes imaginadas.
E daí ao próprio formato da matéria, a própria geologia do mundo, sua interligação mineral com a natureza, o império da água, do vento e das estações do ano, com a fartura de vegetais e corpos regrada sob o ciclo do Sol, o próprio formato das palavras, e das letras, e da luz com suas cores e calor, as forças visíveis da física, (e apenas as visíveis) as forças na medida de sua visibilidade, a forma das catapultas das colunas pirâmides e dos relógios naturais. A arte dos instrumentos musicais com proporções e sutilezas, a concretude dos ritmos em que pulsam sanguíneos os corações, e daí aos próprios corpos, à medicina e meu corpo: o formato das ilhas, o formato da barriga, as constelações, o solstício e o orvalho
Enxergar-se como um sistema sanguíneo, como um eu-radícula, ridículo entre oito bizavós
núcleo da teia, Rosto
Individuação do contínuo
Ponto-clímax duma matéria: o seu significado, seu nome e sua memória, sua consciência narrativa

sábado, 12 de fevereiro de 2022

O BALÃO VOA BEM PESADO

Como um ponto final que, pesado, segura o balão após a tremenda travessia, e permite recarregar.
O eixo, pesado, que aderna a massa de lençol
Como um naufrágio redemoinha as águas em mergulho
Ou uma nadadeira
(e os remoinhos)
O titã se ergue das profundezas da terra
Ele que, atlas, era a própria raiz da terra
Se insurge e se ergue, e sai da boca do inferno
O demônio que reina, o rosto do mundo
seu reinado
- Como um botão pesado, que sustenta a firmeza da camisa, uma abotoadura, um nó prendendo tecidos
Como uma asa costurada de tecido e nós
Como asas
Como ter a força de subir escadas com prazer
Como respirar bem
Narizes respiradoiros
Poema telegramático de flashes de irrelação entre o pêso do botão e a alma do mundo
como um balão que pousa, pesado, e depois se alça em vôo que repousa
o repouso entre-movimento, a linha d'água que divide o dualismo, aqui-lá e a linha
entra numa casa de luzes
perfeita
ruas retas e a terra
a terra tão profunda (plana plana plana infinita para meu ser de geometria circular) terrra reta
(um anagrama, terra, rreta)
- o balão redondo brilhando no céu
reino do vento e dos astros, meteorologia e uma linda visão da astronomia diária do mundo
o balão inflado de pesado, descendo como um ponto final mergulha a implosão da "força normal" antigravidade antinewton
o balão mergulhando como um ponto final que afunda newton às profundezas da terra
restando, aos astros
a livre astro-nomia livre
livres astros
sem física a lhes reger: astrofísicos
retida a terra, na terra
"o que está embaixo, embaixo (a terra)
o que está no alto, no alto (o céu)"
(duas físicas separadas)
e o balão mergulha como um raio numa pedra de ponto final.
viva o balão!
viva, a utopia
a estrada é: para cima!
a Lei reinará na Luz, avenida do céu, a Língua Lei
Livre, dando à luz
Como uma prece que se perde no reto para cima
L
sobre T a terra em sua direção profunda de terrena
O balão mergulha como um ponto, pesado, uma grande pedra que carrega, mergulha no centro centrífugo de uma geometria circular.
Ele, balão, que navegava o anti-infinito espacial dos ventos
e das avenidas de ventos
como um balão
navegando
como um navio dos ares;
- viva o balão
em que navego
e pouso como um raio
e como um ponto final (uma pedra no térreo)
(san
)tiago
)go
)
)
.
__________________________________________
uma pedra
|
|
|
|
. o térreo
--
fim
-
-
- mas em mergulho pra trás, na pré-cabeça
o titã sai pela nuca, em inferno
como atlas segura a terra
- sobe um eixo nas amarras infladas do ar quente
balão do mundo, pulmão-folha respirácea das plantas em vento, umidade, musgo e orvalho (o orvalho perdido);
- balão se ergue, balão voa pisando o antichão da bússola lá de cima, de onde se vê o pólo magnético
- e como um mastro desce macio sobre um lençol de orvalho, rede de pesca desce um céu à caça de estrelas
numa filosofia de térreo;
- viva o ar
viva, para cima!
a direção aulé
aulé: do grego, espaço sem teto, espaço de livre conexão para cima
espaço de antigravidade, de expressão da "normal" sobre os astros
saula de vetor vertical (terra) espaço de aulé
(subir as aulas como um avestruz sobe a cruz,
e daí descer ao vento)
a filosofia nasce no sol, centro do céu e do tempo
reina em espelhos e sombras
e não reina, império da terra e de titãs
viva o balão, que nos alça ao monte olimpo
um pré-futurismo, uma fascinação
a viagem doméstica de balão
no pós-mundo, no passado paralelo
nos textos de magia que newton lia quando entrava no espelho
reinar como um balão mergulha como uma agulha perfura o lençol de orvalho, rasgando-lho com sua pesca de estrelas no afundamento do círculo de cada esférico eu
(eu círculo que me fecha em meu umbigo e dali meu infinito mistério-origem, genealogia M a matéria P a faísca fogo, a abelha e as flores, mãos irmãos e o real)
- reinar como uma avenida aérea (reinar é avenidar o céu) redividir o reino dos céus
e o reino da física e newton
restituir a lei da gravidade a seus constituintes eu duma ordem justa
- redividir com uma justiça de zíper, que ajusta
as massas de pele e músculo e gordura e entranhas-ossos, o corpo em seus segmentos enredados pelas roupas de lençol e de nós de vela e de mastros, de massa enredada
de vento, afinal é tudo vento
mas não ser meramente aéreo
ser como um balão
que perfura o lençol da geometria
descendo do reino dos céus
como um profeta e um raio
como um mago
infinito navegando céus e suas lunetas
e o céu tão lindo que ele veja
ele balão (esse olho)
um furo de luz para o olho
essa luz (um balão caindo com estrondo)
um balão mergulhando como uma agulha, um balão agulhando em seu perfurar
como uma agulha de raios
costurando a eletricidade sobre a teoria superfísica, onifísica, unifísica (astrolábios de newton murmurando)
e o balão lhe pegando
como um raio
extremamente pesado, de repente
um balão que implode de de repente pesado como um raio
"eu sou a chuva" eu precipito da nuvem que eu me tornara
balão: o estado aéreo; maior; o estado nebular, que fura como agulha quando se precipita a colher orvalho
em sua rede circular
como uma gota imita o balão
em seu perfurar do andar térreo
mas o balão é pétreo e plúmbeo
e mergulha
com o peso de todos números de pesado, muito multiplicados: como uma locomotiva, como um tiro num furo
mergulha (se atira) o balão;
então calmo
o balão repousa
perfurando o céu com a nossa ida (aos céus)
uma costura-mapa de astrônomos, astronautas
baloeiros nefelibatas
então mergulhos ante a caça, ante os filhos do sol ( o buraco sol, umbigo-cu da anulação total
o simplesmente imperador único de toda história e toda a humanidade em seu sol (seu dia, sua noite e suas estações)
o balão mergulha atravessando a lua
o balão atravessa a lua, como uma agulha
deixando formar a sombra e o cercado
uma gota se precipitando para cima, um furo ao contrário

a lua atravessa o sol como uma agulha, e o sol mergulha como um círculo no ilimitado (o sol é finito, a terra, infinita; para mim, para cada) O BALÃO VOA BEM PESADO

Como um ponto final que, pesado, segura o balão após a tremenda travessia, e permite recarregar.
O eixo, pesado, que aderna a massa de lençol
Como um naufrágio redemoinha as águas em mergulho
Ou uma nadadeira
(e os remoinhos)
O titã se ergue das profundezas da terra
Ele que, atlas, era a própria raiz da terra
Se insurge e se ergue, e sai da boca do inferno
O demônio que reina, o rosto do mundo
seu reinado
- Como um botão pesado, que sustenta a firmeza da camisa, uma abotoadura, um nó prendendo tecidos
Como uma asa costurada de tecido e nós
Como asas
Como ter a força de subir escadas com prazer
Como respirar bem
Narizes respiradoiros
Poema telegramático de flashes de irrelação entre o pêso do botão e a alma do mundo
como um balão que pousa, pesado, e depois se alça em vôo que repousa
o repouso entre-movimento, a linha d'água que divide o dualismo, aqui-lá e a linha
entra numa casa de luzes
perfeita
ruas retas e a terra
a terra tão profunda (plana plana plana infinita para meu ser de geometria circular) terrra reta
(um anagrama, terra, rreta)
- o balão redondo brilhando no céu
reino do vento e dos astros, meteorologia e uma linda visão da astronomia diária do mundo
o balão inflado de pesado, descendo como um ponto final mergulha a implosão da "força normal" antigravidade antinewton
o balão mergulhando como um ponto final que afunda newton às profundezas da terra
restando, aos astros
a livre astro-nomia livre
livres astros
sem física a lhes reger: astrofísicos
retida a terra, na terra
"o que está embaixo, embaixo (a terra)
o que está no alto, no alto (o céu)"
(duas físicas separadas)
e o balão mergulha como um raio numa pedra de ponto final.
viva o balão!
viva, a utopia
a estrada é: para cima!
a Lei reinará na Luz, avenida do céu, a Língua Lei
Livre, dando à luz
Como uma prece que se perde no reto para cima
L
sobre T a terra em sua direção profunda de terrena
O balão mergulha como um ponto, pesado, uma grande pedra que carrega, mergulha no centro centrífugo de uma geometria circular.
Ele, balão, que navegava o anti-infinito espacial dos ventos
e das avenidas de ventos
como um balão
navegando
como um navio dos ares;
- viva o balão
em que navego
e pouso como um raio
e como um ponto final (uma pedra no térreo)
(san
)tiago
)go
)
)
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uma pedra
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. o térreo
--
fim
-
-
- mas em mergulho pra trás, na pré-cabeça
o titã sai pela nuca, em inferno
como atlas segura a terra
- sobe um eixo nas amarras infladas do ar quente
balão do mundo, pulmão-folha respirácea das plantas em vento, umidade, musgo e orvalho (o orvalho perdido);
- balão se ergue, balão voa pisando o antichão da bússola lá de cima, de onde se vê o pólo magnético
- e como um mastro desce macio sobre um lençol de orvalho, rede de pesca desce um céu à caça de estrelas
numa filosofia de térreo;
- viva o ar
viva, para cima!
a direção aulé
aulé: do grego, espaço sem teto, espaço de livre conexão para cima
espaço de antigravidade, de expressão da "normal" sobre os astros
saula de vetor vertical (terra) espaço de aulé
(subir as aulas como um avestruz sobe a cruz,
e daí descer ao vento)
a filosofia nasce no sol, centro do céu e do tempo
reina em espelhos e sombras
e não reina, império da terra e de titãs
viva o balão, que nos alça ao monte olimpo
um pré-futurismo, uma fascinação
a viagem doméstica de balão
no pós-mundo, no passado paralelo
nos textos de magia que newton lia quando entrava no espelho
reinar como um balão mergulha como uma agulha perfura o lençol de orvalho, rasgando-lho com sua pesca de estrelas no afundamento do círculo de cada esférico eu
(eu círculo que me fecha em meu umbigo e dali meu infinito mistério-origem, genealogia M a matéria P a faísca fogo, a abelha e as flores, mãos irmãos e o real)
- reinar como uma avenida aérea (reinar é avenidar o céu) redividir o reino dos céus
e o reino da física e newton
restituir a lei da gravidade a seus constituintes eu duma ordem justa
- redividir com uma justiça de zíper, que ajusta
as massas de pele e músculo e gordura e entranhas-ossos, o corpo em seus segmentos enredados pelas roupas de lençol e de nós de vela e de mastros, de massa enredada
de vento, afinal é tudo vento
mas não ser meramente aéreo
ser como um balão
que perfura o lençol da geometria
descendo do reino dos céus
como um profeta e um raio
como um mago
infinito navegando céus e suas lunetas
e o céu tão lindo que ele veja
ele balão (esse olho)
um furo de luz para o olho
essa luz (um balão caindo com estrondo)
um balão mergulhando como uma agulha, um balão agulhando em seu perfurar
como uma agulha de raios
costurando a eletricidade sobre a teoria superfísica, onifísica, unifísica (astrolábios de newton murmurando)
e o balão lhe pegando
como um raio
extremamente pesado, de repente
um balão que implode de de repente pesado como um raio
"eu sou a chuva" eu precipito da nuvem que eu me tornara
balão: o estado aéreo; maior; o estado nebular, que fura como agulha quando se precipita a colher orvalho
em sua rede circular
como uma gota imita o balão
em seu perfurar do andar térreo
mas o balão é pétreo e plúmbeo
e mergulha
com o peso de todos números de pesado, muito multiplicados: como uma locomotiva, como um tiro num furo
mergulha (se atira) o balão;
então calmo
o balão repousa
perfurando o céu com a nossa ida (aos céus)
uma costura-mapa de astrônomos, astronautas
baloeiros nefelibatas
então mergulhos ante a caça, ante os filhos do sol ( o buraco sol, umbigo-cu da anulação total
o simplesmente imperador único de toda história e toda a humanidade em seu sol (seu dia, sua noite e suas estações)
o balão mergulha atravessando a lua
o balão atravessa a lua, como uma agulha
deixando formar a sombra e o cercado
uma gota se precipitando para cima, um furo ao contrário
a lua atravessa o sol como uma agulha, e o sol mergulha como um círculo no ilimitado (o sol é finito, a terra, infinita; para mim, para cada)

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astropolítica astromatemática, o mapa

anulada a tabua de esmeralda, abolido o newton: enfim começando

o que está embaixo, é como o que está embaixo
o que está no alto é como o que está no alto
e todas as coisas se desfazem e refazem
como um milagre das múltiplas mãos-mães
o sol é seu pai, baleia é sua mãe
o lento o trouxe em seu ventre
mas é ela é sua motriz
matriz
motrz
e receptáculo (do ceptro
receita cítica
copta

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Cansado de ler, vem-me a vontade de deitar linhas aos borbotões e tomar o papel, sem nele deixar espaço em branco: como fôsse isto um passatempo qual ler, alongar, jogar ou dar passeios: qual não deixasse então estas estranhas marcas que depois lerei, julgando se estão bem escritas: se têm um embalo, um de sintaxe mas também um de ideias, se vêm roçar por paisagens bonitas com suas asas em seu voo disperso, se estão bem desenhadas, bem legíveis, bem intencionadas em suas curvas, se enfim a brincadeira da tinta e má postura em imitação aos signos que se impregnam e viciam como que os dedos ou o próprio olhar, em desvio e salto pelos obstáculos e dispersões em que desejo mergulhar, em que luto por manter o fio de sintaxe em enfim dar-lhe uma conclusão, como um ponto final que, pesado, segura o balão após tremenda travessia, e lhe permite recarregar; se é este um bom jogo de tatuagens na página e na memória, se as esculturas de verbo serão saborosas de depois degustar: que é a escrita senão uma encruzilhada ou um eixo dos muitos tempos que nela se dão? que são as perguntas feitas para si mesmo, um teatro de mímicas em que se aprecia no mais a sonoridade, o eco que subjaz; que é reler-se? e então olá a mim que me releio.

domingo, 16 de janeiro de 2022


Pois vem vibrando as arcadas da montanha, em suas rugas de cimento, em meio a grilos e o frescor noturno: borrões cinzentos de som tremido, em graves largos e a aura de festa: uma festa acelerada, remixada, perdida no seu instante, desfeito o tempo, imprecisamente situada e sucedida, espécie de acidente social, geográfico, mundano: ruídos massivos acumulados de que se inspira haverá, no mínimo, uma multidão às sacudidas, o suor evaporando, as pernas, trocadas, em sucessão: eis que nada pára por um átimo dessa atmosfera perdida, dessa bruma

em meio a grilos 

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

SOBRE O ÍMÃ


a produção da energia elétrica é medida no tempo: megawatts-hora. Um watt é um joule por segundo, então watts-hora seriam joules-hora-segundo. Vamos dar uma cambalhota? Mas antes disso:
a energia elétrica é o tempo dela ligada
"elétrons"...
Paremos a física no átomo, como as palavras dizem que é. O horizonte Termina. Não me venham com microscópios ou simplesmente seus modelos teóricos. Falem-me da realidade concreta!
Sou humano, vejo COISAS, não abstrações.
(malditos físicos perdidos em sua teoria da natureza das estrelas, brincando de refazer newton ao contrário até uma dita sopa primordial)
que será a luz?
que é o sol?
luz: a tomada de 220 voltz
(ah, outra hora vou entender o que é watt, voltz e ohms joules ampères... francamente... não podiam simplificar? quero sim que desenhem, caralho!)
como naquele sonho, acordar e ver que estão todos dormindo, acordem, acordem, o rei está nu
a deusa está nua
a letra está nua, babel, babel
apontemos o coringa, a sombra
e simplesmente a pensemos. parar de iluminar tudo.
somente vendo também as sombras chegamos no sol, e não através da iluminação. abrir os olhos no escuro
(o sol, a utopia do corpo: como criar o ouro)
sol, utopia (ouro) do corpo
vou dar um choque no sol, elétrico como um raio (pelos olhos) te cobrir de estática, inverter teu norte e te pôr a girar como um eletroímã de fios de cobre: te faço motor de nervos voltaicos, te giro bem a luz dos olhos, máquina de radiação pura, infravioleta, ultravermelha: usina de sangue-ferro e ar bombeado (fole) encruzilhada da água em seus rins, túnel da comida, fígado fogo da alma

domingo, 19 de dezembro de 2021

O Codex Seraphinianus é um lindo livro de 1970

Todo ilustrado e escrito numa língua ininteligível de traços rabiscos que se amarram como macarrão, e seus habitantes comem macarrão de letras enquanto suas mãos viram canetas e seus olhos plantas, jacarés viram camas e há uma crítica profunda (uma anunciação) do futuro, dos animais imperadores, das cartas de baralho (e o mistério arruinado das letras, da babel perdida)
Não vou revê-lo, não em breve. Sugiro dar uma aprofundada no livro, procurando um sentido. Não é caótico, o autor ilustrou um sistema: há muitas estruturas de signo e um contínuo ressoar, de não serem mundos tão absurdos quanto o nosso. A teoria das flores, e das cores.
Teoria dos insetos. Dos minerais eternos. Do olho e do céu e do mar. Da babel de casas em que moramos, do prato, do jantar. O relógio como um buraco negro, a roupa como um buraco negro, a filiação, o banheiro, a essencialidade da água em seu percurso de chuvas e lagos (urina e lágrimas) a língua com sua carnosa potência, os olhos os olhos o Nariz, singrando o rosto por cima de lábios e sorriso, o sabor saber

domingo, 12 de dezembro de 2021

Inexiste o virtual (o mundo está todo recheado)

Não há virtual, a materialidade que é intensa e misteriosa.

Assumimos com facilidade que a letra e o mapa possuem uma segunda natureza, imaterial. Uma segunda existência, no seu significado, e nas verdades que segredos anotados podem encerrar. Um segundo plano de existência, abstrato, superior e regente do plano material, as regras que dão sentido ao diretamente intuído (que é um tanto grosseiro, burro, fora de foco).
Mas não há virtual. “Nada há na mente”. O sentido, a verdade que leio no mapa, não passa duma sombra, dum reflexo da materialidade brilhando mais além. O sentido só existe na medida da sua conexão, dos fios longos, longos como coleiras, que o atam ao mundo...
De volta ao mundo, seguindo o mapa, mesmo as trilhas que ele aponta, os caminhos, não existem. O que “está lá”, apenas e poderosamente, é uma vala que conduz. Os contornos desenhados são condensações, sedimentações da amorfa matéria que esboça Cercas e Centros, linhas divisórias e suas passagens formadas a partir do revolvimento massivo, em proliferação de princípios motores, do princípio genético da oni-concepção.
Não há nada além do papel do mapa, e da tinta de suas inscrições. E são justamente essas posições, esse seu desenho, que pulsa como um ponto-porta em que se retêm redes, reinações da matéria engalfinhando-se com ela mesma.
Ver no mapa, apenas o papel pintado, e apreender a força deste papel pintado, a força da tinta e do objeto mágico que ela cria: a força do rosto, a força da língua, apenas no rosto, apenas na língua: o mundo é real.
É preciso ver suas raízes, desenterrar as imensas letras: elas estão nuas, o mapa está nu, vejam o mapa! Ele pulsa! Inexiste passado e futuro: "só existe o que é" e o que existe é o presente, o milimétrico instante do agora: que é então um instante transbordante e pesado, grosso mesmo pois guarda nele todo o virtual que imaginavam fora. O mundo é denso, é maciço (não há vazio entre átomos, tudo está recheado) o mundo é denso

domingo, 21 de novembro de 2021

A montanha


É bonito que
mais adulto e mais peso de responsabilidade
e a secura a dureza a frieza a lonjura
como uma montanha de rocha fria e
É divertido (é bonito) que
ela se ergue em alegria e então
quando a montanha dança
um gigante carregando mundos, um muito adulto
e o peso que ele arrasta e
Então é leve a dança
a montanha sobe feito uma nuvem

sábado, 20 de novembro de 2021

De volta


Esvaziar a mente pelos dedos
Página vazia: e te invado
Ou nem sou eu, meus dedos
A febre que borbulha e
Se esvai
Limpar o fundo dos meus olhos
- como um pano úmido
a retirar pó -
O pó que se amontoa,
E minha mente uma biblioteca empoeirada
Um cemitério, uma ravina seca empedrada
Tirar-me o pó como um lavrador retira pedras
e limpa a terra
Despejar-me na escrita
Como um despejo que me limpa
Dessa poeira, sufocante
Não quero desenhos desse pó, no papel
Não dar-lhe nomes, entroná-lo
Multiplicá-lo, rebatê-lo em espelhos
Trazê-lo para dentro da família, case com minha prima, coma do meu jantar
Te ignoro
Hoje, te varro como quem joga fora os embrulhos do correio
Uma semana toda curvado sob teu pêso cinza
Mastigando tuas correntes cinzas
Farejando teu rastro estéril para te cortar, teia de vidro que sufoca tudo
Mas hoje livre
Te espano com um espanador de penas compridas
Sou de volta um homem
E durmo, em primeiro plano,
E preparo uma boa salada no almoço
E visito minha avó para colher-lhe o cafuné
E não faço nada
Sou só e vivo, vivo,
vivo simplesmente e sim.
Da poeira, eu a espirro para bem longe

terça-feira, 9 de novembro de 2021

Do nariz

Vacinado, encontro amigos, tiro a máscara, patati patatá entre cuspes e lambidas, eis que sinto frio no nariz.

Saco a máscara do bolso e sou escorraçado como incoerente. Meu nariz, meu doce nariz (oh obra-prima pontuda), por que não posso te cobrir, independente dos micróbios?
Quero cobrir-me a face como um eco perdido de burkas, cobrir-me o rosto com um véu. Oh! por vergonha dos lábios tremendo, sim, por pudor do hálito e do bigode. Como um antigo, os cabelos ocultos sob o chapéu, e as boas maneiras de retirá-lo, respeitoso. Pois por respeito a ti, pelo resguardo da intimidade, me guardarei da tua leitura labial, abafarei minha voz. Em nome do nariz quentinho, ah, não me venham com teorias de contágio, estou falando da moda, da moda imperiosa e suas repressões; estou falando do véu, e da nudez!
Já tínhamos a máscara! Era meu protesto lacrimogênio. Vândalos mascarados rebentam vidraças de bancos e somem no anonimato. Mas hoje as máscaras estão invertidas, chegamos ao oriente. Pois a babilônia subiu mais um degrau, avançando as roupas e sua nudez imantada: moral repressora, e no reverso, tímida luxúria dos narizes tocando, com um leve roçar. De volta à vergonha e a intimidade, erguemos burqas como princesas ocultam a beleza proibida, e os olhos pulsam de personalidade.
Assim vestido e desvestido, frequento a máscara como um boné, tirando e botando, e botando certo e errado, para horror da moda e todo seu arsenal bélico. Que a nudez se funda em violências e proteções, e cada escudo se torna também um fecho a desatar: tiro-te a máscara para um beijo rápido, a pele desacostumada ao vento e ao sol, tua pele protegida apenas para mim: cueca, calcinha da face!
Um novo patamar do beijo, eletrizado: tesão louco de te ver narinas-boca, descobrir-te dentes que talvez sorriam: a face desbanalizada como pura intimidade - e daí à autoridade de ignorar a lei do véu, como um bruto mijando em público, e impôr inteiramente o rosto no vagão. Alto lá! Peguem-no!