Me pergunto se meu corpo é um mapa. É o que dizem, de toda forma: espelho dos fantasmas da minha mente, ou raiz mesmo deles. Daí se eu podasse essa tensão, criasse um núcleo firme de volume, preenchesse minha sustentação: esse abrir da postura traria tantos caminhos da paz de espírito. Que os iogues treinam anos o conformar dos ossos como catedral para fluir o Om, e só nesse corpo encantado, liso, ligariam aos ventos e ao calor da terra, um fio ligado às estrelas desde os pés até o topo da cabeça, e alguns centímetros acima da moleira, lá onde a alma termina... De volta, meu corpo é todo enrugado, torto, preso e adernado: como essa mente, inquieta, empilhando faces que não se veem direito. Hoje o que busco é só pilares, sustentação, mas numa época suspeitava eu de estar escondida, nalgum lugar, minha alma engasgada entre duas vértebras ou no recôndito da coluna... Ali atrás das escápulas, como asas de anjo que me saíssem pelas costas, meu invisível por definição, e então eu sentia o peso deitado ao chão, colado sem divisão com o que não vejo, nem sendo mais eu mas só uma ponta do mundo, e quando ando é o mundo que escorre embaixo porque eu mesmo não me mexo, centro do relógio, vendo tudo girar. Me torno esfera, abro braços como balão e busco envolver como um leão, criando arcos grossos como um aqueduto, uma ponte bonita por onde passa um trem de rodas azeitadas e fumaça limpa de vapor virando nuvem. Lembrar de não me esquecer, não esquecer de cada esfera que compõe esse volume - que volume é a palavra mestra, não sou papel, não sou corda, minha carne precisa do espaço para inchar de vida. Então invoco a força e o cheio, preencho-me de mim, assento. Recuso as filosofias que voam longe, exaltando uma ascensão etérea: subir para mim é erguer-me ereto, é como bolhas de ar sobem na água, a pressão de mim me construindo, torre de babel humana que se alevanta na paisagem impossível, e toca o céu apenas por existir incompleta, em seu vestido de muitas faces. Amo as rugosidades e as torções e preso. Sou coerente com o mundo, não quero não sê-lo. Espelho do mundo, meu corpo é o centro de tudo que percebo (por definição): e enquanto me distraio, imaginando o olhar de fora e minha pequenez de formiga, queridos deuses tecendo golpes e paixões... volto a descobrir que sou o outro mesmo é quando sou o mundo, verruga do mundo, porta, janela, olho, boca, nariz empinado do tudo: meus pés e meus ísquios sentado e minhas costelas deitado e ombros e crânio, ossatura que aflora da terra e do mar, sou a beira da praia, margem dum corpo líquido infindo cheio de peixes, sou uns goles de ar roubados do vento meu pai, a luz que meus olhos comem pedaço, afloram em cor e atiram no ralo do sol, meu coração metrônomo murmura o tempo... Corpo, querido corpo, gostosa vida nesse flerte com te vestir de vez, como luva, meia, a justiça como calças justas. Brilhar escuro como um sol cego, estouro mudo, o chumbo leve de onde nascem árvores braços pernas cabelos unhas, sou um ouriço de pontas, estrela do mar, céu da boca, língua esperanto verde de tanto sabor. Corpo, se não te escuto (também não somos dois mas só um), se não me escuto (quem entende o que se deve ou não deve fazer), seguimos, sigo, segues, em frente, ascendendo do forte chão como pilastra. Farol, broto então feito titã, ciclope imenso, mirando o tempo. Turbilhão.
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